/
0 Comments
Na última quinta-feira, dia 7 de julho, recebemos a visita de Viviana de Oliveira, autora do Blog Vintologias, no Outono 81. Pouco depois, Viviana postou no Vintologias um belíssimo texto sobre seu encontro com os Flights de Vinho, que nos emocionou profundamente ao resumir de maneira muito delicada nosso anseio em compartilhar experiências e conhecimento sobre vinho. Abaixo você confere o texto "A filosofia do Flight" na íntegra. Vale também conferir os escritos desta jovem sommelier no Vintologias.

A Filosofia do Flight
Viviana de Oliveira (postado em Vintologias, 8 de julho de 2011)

"Ontem, pela primeira vez, fui ao restaurante e bar Outono 81, que fica na ruazinha de nome homônimo e funciona sob comando da proprietária Dulce Ribeiro. O lugar abre de terça a sábado, e a sua versatilidade permite que ele abrigue durante o dia o estoque e a loja da importadora Zahil, cujos rótulos são servidos ali mesmo, ao cair a noite. É um lugar discreto por fora, mas surpreendente por dentro. Logo quando entrei senti que ali dominava uma visão alternativa da cultura do vinho. No primeiro salão há uma enorme mesa de bar formando um semi-circulo, espaço ideal para a realização de saraus e outras performances artísticas mais íntimas, que pedem uma configuração no estilo anfiteatro.Além da atmosfera hip, sem pompa nem pretensão, fomos surpreendidos por um jazz fino, ao vivo, que se difundia do segundo salão, onde ficam expostos os rótulos, pano de fundo para os clientes sentados nas grandes mesas ovais. Mas o que de início despertou a minha curiosidade sobre este bar foi a proposta principal da casa – inusitada, ao meu ver – de oferecer a cada semana diferentes opções de vinhos em taça, algo raríssimo para Belo Horizonte. E foi justamente isso que eu pretendia conferir, ou melhor, degustar, naquela noite.

Primeiramente, devo uma explicação ao leitor: as taças de vinho não são selecionadas aleatoriamente, e sim empregando o que se pode chamar de "filosofia do flight”. Poucas pessoas sabem o que é um “flight". Trata-se de uma coletânea abrangendo uma variedade de vinhos (espumantes, brancos, tintos, etc), e que segue uma lógica degustativa, mas sem impor qualquer tipo de conhecimento prévio. O flight representa para o vinho o que a antologia representa para a literatura. Ambos os processos permitem a co-existência de complexidades, estilos, histórias, controvérsias, e personalidades intrínsecas a esses respectivos universos. Sem falar na originalidade embutida nesses dois casos, tanto para o organizador quanto para o leitor, ou ainda, no nosso caso, o degustador.

A minha análise da filosofia do flight não é conceitual, visto que ela se abre para a possibilidade de uma dialética com outras formas artísticas, principalmente a literatura, que enquanto expressão humana, condiz mais com o nosso lado emocional e sensorial do que com o puramente lógico e racional. Mas, em um mundo ainda impregnado de "-ismos" (esnobismo, elitismo, etc) o que poderia ser mais prazeroso, instigante e inovador do que uma releitura do vinho? O que o flight propõe é a busca pelo conhecimento do vinho em uma outra linguagem, o que faz com que haja uma desmistificação das idéias, das crenças e dos supostos saberes sobre o vinho, abrindo o caminho para um esclarecimento próprio. E, por coincidência, foi em alusão à filosofia de Platão que eu e meu par encerramos o nosso íntimo symposium no Outono 81, pois ao sairmos do bar, com as nossas mentes positivamente inebriadas pelo vinho, encontramos no céu um pequeno lastro de estrelas, o que para nós, seres “urbanos”, é uma visão tão rara quanto a de alguém lendo uma antologia."


You may also like

Nenhum comentário: