O som e a fúria da Champagne

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Em Champagne oitenta por cento dos vinhos são fabricados por cooperativas e grandes maisons comerciais. Grande parte delas compram suas uvas de um número ilimitado de viticultores e a prensagem, consequentemente, ocorre em vários lugares distintos da região. Não há incentivo para os viticultores que mantém seus rendimentos abaixo da média, e como resultado a região tem o maior problema da França com desperdícios, desgaste da terra e superprodução. A resposta, para os champenois, não é tão simples quanto parece para o restante da França. A falta de iniciativa em assumir um projeto mais sustentável e de menor escala contribui para a continuação do ciclo de produções indiscriminadas e supremacia das grandes marcas, que não se preocupam em nada com as questões ambientais, econômicas e sociais apontadas acima, desde que sejam capazes de sair no lucro.

Mas nem tudo parece perdido em Champagne. Há produtores conscientes da necessidade de mudança e que praticam esta conscientização no dia a dia, em cada etapa de produção, desde a mão de obra empregada até o número de garrafas a serem fabricadas. É o caso da Maison Drappier que desde 1808, elabora seu estilo intransigente de champanhe oriundo de seus 40 hectares de vinhedos em Urville, ao sul de Champagne. Longe da badalação que impulsiona as grandes casas, André Drappier e seu filho Michel, representando respectivamente a oitava e nona geração de champagnólogos da família, preferem encontrar a sinceridade do vinho, sem artifícios. Uma distinção dos Drappier é seu amor imoderado pela Pinot Noir, introduzida pelo avô de Michel nos anos 30, mesmo que não sejam negligenciadas a Pinot Meunier, a Chardonnay e, notavelmente, a Arbane, a Pinot Blanc e a Petit Meslier, três variedades “esquecidas” depois da tomada imperialista das castas tradicionais sobre as selvagens.
André Drappier é um exemplo de personagens que resistem às tentências do
mercado atual, preferindo conservar a "artesanalidade" de seus champanhes
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A casa também possui uma filosofia de sustentabilidade, uma espécie de laissez-faire em relação aos vinhedos, privilegiando pequenas produções e buscando ao máximo não interferir no trabalho da natureza, viabilizando assim a produção um champanhe que representa a mais pura e honesta expressão de seu terroir. Também se emprega um baixo uso de enxofre, conferindo maior palato e elegância ao champanhe. A Drappier é a única maison  do mundo a realizar as duas fermentações na garrafa original em toda a sua linha de produção, desde a meia garrafa até às raras Primat de 27 litros. É um processo sem dúvidas mais complexo delicado e que resulta em vinhos mais autênticos e menos desperdícios com garrafas secundárias ao longo da produção O rémuage é feito manualmente em praticamente toda a linha e o licor de expedição, envelhecido quinze anos em carvalho, é uma receita secreta da família. Maison Drappier representa um estilo único, onde investimentos que poderiam ser revertidos em estudo e consolidação de marca se desdobram no tempo e na dedicação aos vinhedos, à família e aos consumidores, muitos deles extremamente leais à Drappier, como fora o caso do general Charles de Gaulle. Com outras casas seguindo os passos da Drappier em Champagne, tudo indica que a supremacia das marcas será paulatinamente substituída pela visão de indivíduos como André, Michel e seus antepassados: uma visão de um champanhe mais artesanal, mais intimamente escalado, modesto e menos suscetível aos ventos sedutores e efêmeros da Marca, da Moda e do Marketing.



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