As expressões da Pinot Noir: segunda degustação comentada na REX BIBENDI

/
0 Comments

Na última quinta-feira, reunimos um grupo íntimo de apreciadores e curiosos da uva Pinot Noir para uma degustação temática muito especial, até porque não é todo dia que temos a oportunidade de abrir seis garrafas singulares de Pinot.

Abrimos o evento com um vinho cheio de vivacidade, de uma região da França que demorou muito tempo para lavar o seu nome em termos de qualidade: trata-se de Languedoc, no sudeste do país. O vinho de François Lurton, Les Salices Pinot Noir, é um vinho jovem, que esbanja frutas vermelhas e possui um corpo firme, mas sem abrir mão de uma maciez inédita. Perfeito para acompanhar alguns hors d'oeuvres, tapas ou uma pizza. Um vinho de design arrojado e espírito vanguardista. Muito elogiado na noite!

Em seguida, degustamos um neozelandês, de Malborough, região localizada ao extremo norte da ilha sul. Esse vinho é delicadíssimo mas com um peso pronunciado. Insustentável leveza do ser, está aí uma descrição que faltou na hora... O Framingham Pinot Noir não é um pinot que se esconde. Na taça, predominam frutas vermelhas maduras, violetas e um leve tostado que contribui elegantemente para fazer deste vinho um representante fidedigno da Nova Zelândia.

A partir de então, o nosso destino foi a Borgonha, e com isso pudemos comprovar a veracidade do ditado local: Deixemos que Paris seja a cabeça, Champagne a alma, e Borgonha o estômago da França. Logo de início, o Chambolle-Musigny dos produtores Roux Père et Fils brilhou, demonstrando que por traz de uma uva manhosa, delicada e sutil, há sempre um quê de estrutura, o que o crítico Matt Krammer chama de "a coluna vertebral de um Chambolle", que faz com que a performance do vinho seja ao mesmo tempo  um "leve balanço" e um "soco de profundidade". 

Gevrey-Chambertin, também dos Roux, demonstrou na taça o seu poder conquistador. Vinho preferido de Napoleão, não é à toa que busque conquistar o nosso paladar. Com licença poética, afirmo que cada gole desse vinho é como uma cantada arrebatadora. Difícil é não se apaixonar, mesmo para quem tem um paladar ainda não muito apto a captar os aromas instigantes de couro, caça e trufas com os quais Gevrey-Chambertin nos flerta...

No momento do jantar, entrou com timidez o Nuits-St-Georges, do Henri Gouges. Para muitos entusiastas, o domaine Henri Gouges dispensa apresentações, é um imperativo categórico. Mas faço questão de apresentá-lo, e frisar a sua importância em termos de inovação e tradição na Borgonha. Inovar, para os Gouges, significa conhecer cada vez melhor o seu terroir, suas vinhas e seus consumidoras. Já a tradição advém do estilo único dos vinhos, mais estruturados e com taninos angulosos, que pedem comida, principalmente em se tratando da culínaria regional. Para acompanhar o Nuits-St-Georges (e ajudá-lo a abrir-se à mesa!) o chef Luciano Carvalho, do Restaurante Outono 81, preparou um prato inspirado na personagem Babette, do clássico A Festa de Babette. De fato, o Caille en sacophage à la mineira e o Nuits-St-Georges fizeram uma dupla imbatível ao paladar. A prova? O silêncio na hora da refeição. E a confraternização ao final. 

Encerramos a noite com um vinho cult, de um projeto recente do produtor André Ostertag (Alsácia). O Montsecano Pinot Noir é um vinho peculiar, que procura cativar a sua atenção, pois exibe aromas muito inusitados, ainda para os que já têm um conhecimento prévio da uva. Eu diria que há nele algo da pedra, da fruta, do tempo e do homem. Vale do Casablanca é reconhecido pela forte influência das correntes de Humbolt, que proporicionam ares frios, muito bem-vindos para as videiras, uma vez que previne um amadurecimento precoce e excessivo.

Panaceia, paradoxo e poesia... As expressões da Pinot Noir.

Postado por Viviana de Oliveira



You may also like

Nenhum comentário: